Dois mestres na periferia do capitalismo
Uma discussão sobre "Idéias fora do lugar" de Roberto Schwarz
Cláudio R. Duarte
De forma alguma posso concordar com os que dizem que Schwarz faz sociologia da literatura. Ao contrário, investiga a sociedade dentro do texto de Machado de Assis, e deixa com cara de bobo aquelas leituras estetizantes, que não dão peso ontológico para a forma literária. O ensaio sobre as idéias fora do lugar é apenas um dos momentos de sua interpretação, aquele que prepara a análise do Brás Cubas. Nela ele procura mostrar como a ideologia liberal no Brasil não tem um funcionamento, como legitimação da dominação de classe, igual ao modelo europeu de capitalismo, mas funciona como puro enfeite, capricho, desfaçatez, cinismo, tal como indica a verve volúvel do narrador Brás Cubas. Sem essa análise social simplesmente não se compreende nada da FORMA LITERÁRIA e de sua mímese.E com isso, perceba bem, caro Marcos, Schwarz abre a possibilidade de criticar, com Machado, não só o nosso atraso social e cultural mas também a própria norma burguesa. Um Schwarz nacionalista é um disparate. Grandes pensadores seguiram essa forma de pensar, entre outros John Gledson, José Antônio Pasta Jr., Paulo Arantes e até o J.G. Merquior, mostrando a fecundidade dessa análise.A pergunta deveria ser outra: como pode o esteticismo ingênuo se propagar num país tão vulgar culturalmente e economicamente tão cruel e bárbaro como o Brasil ? O próprio Machado deu a resposta com os tipos parvenus da cultura, tal como pinta em Quincas Borba ou Esaú e Jacó.
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Muitos são os que desprezam essa crítica de Schwarz confundindo-o, tal como Maria Sylvia C. Franco, com um marxista tosco, que não conhece o mínimo da unidade dialética dos contrários.O nosso atraso (escravismo) não é um atraso no tempo, mas um atraso sincrônico ao progresso capitalista do centro, e promovido por ele: é o outro dialético do liberalismo, funcional a ele, o seu próprio fundamento. O sistema é um só. Mas isso não quer dizer que o sistema não era (e é) rachado em centro e periferia da acumulação. Quanto à forma literária em Machado (pelo menos o do segundo Machado), somente Schwarz a desvendou realmente (o resto é quase sempre mera pesquisa estilística, sem força explicativa real). É um trabalho comparável ao de Benjamin ou Adorno.
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Não, o liberalismo era uma forma ideológica que funcionava, pelo menos até a ruptura de 1848, segundo Lukács. Lá na Europa, a ideologia burguesa da troca de equivalentes funcionava, bem ou mal tinha ainda um certo fundo real; real hipocritamente encoberto (não cinicamente) por direitos humanos, racionalismo, política democrática estatal etc. Porém, não aqui em que a força de trabalho era completamente uma coisa, o mesmo para o pobre-diabo 'livre', mas sem liberdade alguma de autodeterminação da vida, nem a de vender no mercado. Aqui a dominação era explícita. Isto tem implicações fundamentais para o romance: Machado já não podia imitar a forma do roman fleuve europeu, pois esse não se adaptava à nossa matéria histórica. Vide a leitura que Schwarz faz de Alencar a partir do metro machadiano. Machado produziu então uma nova forma artística que conseguiu determinar este material de forma precisa (mimese+construção), com uma genialidade inacreditável, que o faz quase um vidente de nossas futuras mazelas modernas. Muitos dos esquemas de Machado operam até hoje como realidade, não como ficção. Foi mais fundo que o conhecimento sociológico tradicional; sua arte atingiu a especificidade brasileira, a verdade negativa da nossa formação e da sociedade capitalista mundial. Só que Machado fez tudo isso embaralhando muito as coisas, multiplicando as aparências: vide como até hoje é interpretado sujeitos escroques como Bentinho ou o Conselheiro Ayres pela crítica literária estetizante.
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Informação útil para os renitentes: Schwarz escreveu o seu doutorado em francês. Nele, o título do texto não era obviamente "Idéias fora do lugar", mas "Des ideés en porte faux" ...algo assim como "idéias em falso", "idéias mancas". Daí a confusão de "fora do lugar" com um aspecto meramente geográfico (já que toda ideologia tem de se encaixar num lugar sendo funcional).
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"Uma boa objeção: existiam homens livres na ordem escravocrata, logo, existe um lugar para as idéias liberais". Depende de quem estamos nos referindo. "Os homens livres na ordem escravocrata" que Maria Sylvia Carvalho Franco estuda em sua tese são os agregados e dependentes sem eira nem beira, para os quais o mercado e o trabalho assalariado não existiam como opção. Mas Schwarz não é tão ingênuo em não perceber que o liberalismo e a ideologia da troca de equivalentes não cumpre uma função orgânica num país que vive de exportações agrícolas no mercado mundial. Para fora, o nosso liberalismo faz sentido. Para dentro é que ele ficava manco.
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A ideologia liberal burguesa no Brasil não funciona da mesma forma que na Europa. Esta é uma diferença crucial que Machado foi um dos primeiros a sentir (talvez não a conceber), tanto que mudou a forma do romance brasileiro. A pesquisa do Schwarz não é uma coisa surgida do vácuo. Muita gente já tinha escrito sobre nossas esquisitices e descaramentos, entre outros Joaquim Nabuco. Qto a sua questão sobre a ideologia, diria que a ideologia tem de funcionar, manifestar sua força pragmática na realidade: ou funciona ou torna-se cinismo. Na Europa os ideais humanistas e liberais realmente mascaravam, até pelo menos 1848 cf. Lukács. Marx mostra como após essa data a economia se torna cada vez mais vulgar, uma apologia direta da burguesia, uma "religião da vida cotidiana". No Brasil, a manutenção da ordem não podia ser feita simplesmente com a ideologia liberal, tinha a necessidade da força, da violência para operar realmente. O fetiche da mercadoria se instaura cinicamente sem ideologia. Quanto à superação (Aufhebung, que você ironiza como se fosse mera perfumaria), realmente você não entendeu nada do que está em jogo na crítica de Schwarz-Machado: não se trata de tirarmos nosso atraso do Centro capitalista, nos igualarmos a ele. Mas trata-se, antes, de criticarmos o sistema liberal-burguês tanto aqui na periferia (onde o sistema mostra sua verdade negativa) quanto no Centro. Machado mostra, segundo Schwarz, a virtualidade negativa do sistema mundial... algo que só apareceu de fato no Centro por volta das Grandes Guerras, com Hitler, Auschwitz etc. Coisa que Adorno-Horkheimer foram os primeiros a recuperar como história do fracasso desastroso da razão iluminista. Machado é negativo de ponta a ponta. A crítica brasileira nunca tinha atinado para isso.
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Schwarz não afirma, nem ninguém afirmaria um disparate desses, que a ideologia liberal na Europa correspondia com sua realidade histórica. Justamente por ser ideologia ela corresponde só às "aparências" (Vencedor, p.12,18), já que lá há troca de equivalentes entre vendedores livres no mercado, a igualdade formal é real, combate-se o favor (privilégio feudal), surge a ética do trabalho, as Luzes entram de fato como esclarecimento social na educação, etc.etc. Ou seja, a ideologia na Europa, pelo menos até 1848, funcionava como engano objetivo pois correspondia à APARÊNCIA SOCIALMENTE NECESSÁRIA da circulação de mercadorias. Balzac, Stendhal ou Baudelaire, mesmo imersos nessa ideologia, conseguiram rompê-la. Sartre, Adorno, Benjamin, Oheler retomaram tudo isso. Said é mero epígono nesse debate.Isso não quer dizer que o sistema ideológico europeu então era perfeito. Claro que não, o romantismo já tinha percebido isso, como vc disse, aqui e lá. Só que ele só irá mostrar REALMENTE a sua negatividade absoluta, pelo menos em solo europeu, em momentos traumáticos como 1848 ou com a ascensão do nazi-fascismo. O que o Pós-Guerra iria recalcar, com a reconstrução do Estado de Bem-estar.O colonialismo do tipo americano podia ser justificado por um liberal como Wakefield - o que Marx mostra no Capital. O escravismo não. Cedo ou tarde a Inglaterra cobraria o mercado livre de países como Brasil, no momento em que a própria produtividade econômica do escravo ia se tornando menor, comparada ao assalariamento.Em que sentido Machado supera os românticos ? A rigor, Machado não supera nada, a não ser no plano literário, pois dá um passo além no nosso Romance: cria uma forma precisa que exprime de forma incrível, inédita no país, todas as nossas mazelas, sem qualquer ranço de nacionalismo ou de saudades do modelo europeu que nunca tínhamos visto.
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Machado não é, porém, "salvação de lavoura" alguma. Ao contrário, tornava-se um clássico nacional, pasmen, negativo, pessimista, que detonava nossa lavoura nascente, para além da própria ideologia burguesa e seu sistema correspondente. Mas se comparmos sua mordacidade crítica com Alencar e os românticos, aí teremos, como mostrou Schwarz e outros, um grande hiato. Ou pelo menos estamos aguardando aqui a sua demonstração estética, mínima que for, da complexidade crítica e negativa do nosso romantismo, para além da própria ideologia burguesa e seu sistema. Ou seja, sem entrar no mérito formal-estético de Machado ou dos românticos, como Schwarz fez, não temos avanço em nosso debate. Quanto ao liberalismo ser uma ideologia "dentro do lugar" no Brasil, o que você está desprezando é o próprio conhecimento histórico (e dialético) do crítico que ora criticas. Seria muita ingenuidade não perceber como o liberalismo estava na boca de fazendeiros escravistas. Schwarz sabia muito bem que o livre-cambismo servia para abrir mercados, isto é, que ele operava ao nível da circulação... MAS não ao nível da PRODUÇÃO. É isso que torna tais idéias "mancas" ou "postiças". A ideologia liberal progressista não caía bem cotidianamente, não era congruente com escravismo e clientelismo, era até disfuncional em certo contexto. Vivíamos uma esquizofrenia descarada entre discurso e realidade. Bosi, citado, é apenas inconsequente em sua logomaquia anti-Schwarz, que, aliás, é apenas mais um crente, talvez inconsciente, destes mesmos ideais liberais, progressistas e desenvolvimentistas do sistema do capital mundial. ("Era liberdade para destruir a liberdade"... cita o bom-moço católico... como se tal liberdade de comercializar não tivesse em si tal contradição desde o seu princípio).
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"Se insistimos no viés que escravismo e favor introduziram nas idéias do tempo, não foi p/ as descartar, mas p/ descrevê-las enqto enviesadas - fora de centro em relação à exigência q elas mesmas propunham"... (As idéias fora do lugar, in: Ao vencedor as batatas, Duas Cidades, p.21). O que Schwarz mostra, com Machado em mãos, não é que o liberalismo e o racionalismo eram um completo espantalho no Brasil. Eles eram, no entanto, no chão da vida cotidiana onde se passa o vivido dos romances machadianos, mais um "ornato e marca de fidalguia" (p.19) que uma relação efetiva fundada nas aparências. Isso é totalmente diferente da Europa. O colonialismo estava muito longe para um europeu. No Brasil a lógica cotidiana do favor substituía na prática o sistema liberal como ideal ético, passando até mesmo como "liberdade entre iguais", algo parecido (mas não igual) à ideologia liberal portanto: "assim, com método, atribui-se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio etc."(p. 19)Acho que já chega, mas vale ressaltar ainda: a qst. da ideologia liberl é só um dos problemas tratados por Machado, cf. Schwarz. No fundo um tema mais fundamental é esse: há toda a questão do desenvolvimento histórico malogrado no Brasil, uma espécie de dialética negativa da formação (contrastes rebarbativos, desproporções, disparates, anacronismos, contradições insolúveis, conciliações de compromisso etc.), que só Machado realmente deu forma como tal, em pleno séc.19, adiantando-se em muito ao modernismo europeu. Se para você tudo isso é pouco ou ilusório (mero exercício de binarismo dialético, ainda por cima "nacionalista"), da parte de Schwarz ou de Machado, então... cabe mostrar aqui ou em outro lugar, porque tudo o que você falou não cola.
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Não vou insistir mais: você está igualando o funcionamento de nossa vida ideológica colonial à da Europa só pelo fato de ambas viverem integradas num sistema mundial de acumulação de capital. A totalidade não desfaz as desigualdades. O sistema é desigual e combinado etc. Não havia esquizofrenia radical entre teoria e praxis, ideologia e vida cotidiana na Europa até pelo menos 1848 (cf. Lukács). Mesmo depois daqui, o sistema liberal operava perto da aparência da circulação, havia mobilidade social, etc. Somente mais tarde a ideologia no solo europeu realmente furou, sendo necessário realmente o apelo à força. O nazi-fascismo foi isso. A Europa exportava as suas contradições mais agudas, os seus prejuízos, enquanto acumulava os ganhos imperiais. A ideologia burguesa funcionava enquanto tal fundada nas aparências (não simplesmente "no relho"), não era puro cinismo e desfaçatez de classe como aqui. O liberalismo aqui era um mero discurso oligarca para conseguir mercados externos, no mais, era uma coisa radical demais, coisa de republicanos jacobinistas, de classes perigosas. É claro que as armas são o substrato último da dominação aqui como lá. Mas isso não iguala nossa posição a deles. O romantismo, salvo melhor análise (e daria um bom estudo isso) não parece-me ter a consciência da absoluta negatividade da ordem capitalista. É um mal difuso, jogado ao mundo em si mesmo. Precisou surgir um Baudelaire para mostrar o limite do velho romantismo. Fora a questão da ideologia, que não é o principal para Schwarz, é todo o ritmo histórico natural da sociedade brasileira - a história lenta, a modernização conservadora, que não acumula experiência política nenhuma, onde tudo dá em nada - que Machado está apresentando em seus textos. Mostrar isso foi um mérito (quase) indiscutível de Schwarz. Por isso tiro meu chapéu a ele sim.Coisa nem imaginada por comentadores clássicos e maravilhosos como Lucia Miguel Pereira, Augusto Meyer, Barreto Filho. Por isso mesmo não sou um cultor de Schwarz. É preciso ler todos eles.
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"Cláudio, onde existem homens livres devem existir idéias liberais, não é mesmo?"
Sim. Claro. A questão é a da organicidade das idéias, a do seu enraizamento, já que era difícil ser um "Kant do favor", como brinca Schwarz. ... e a questão do colonialismo na mentalidade européia não é objeção alguma ao fato de que ... o liberalismo era uma forma ideológica que funcionava como legitimação da dominação, pelo menos até a ruptura de 1848, segundo Lukács. Na Europa, a ideologia burguesa da troca de equivalentes funcionava, pois bem ou mal tinha ainda um bom fundo real nas aparências; real hipocritamente encoberto (não cinicamente) por direitos humanos, racionalismo, política democrática estatal etc. Porém, não aqui em que a força de trabalho era completamente coisificada, o mesmo para o pobre-diabo 'livre', mas sem liberdade alguma de autodeterminação da vida, nem a de vender no mercado. Aqui a dominação era muito explícita. Isto tem implicações fundamentais para o romance: Machado já não podia imitar a forma do roman fleuve europeu, pois esse não se adaptava à nossa matéria histórica. Vide a leitura que Schwarz faz de Alencar a partir do metro machadiano. Machado produziu então uma nova forma artística que conseguiu determinar este material de forma precisa (mimese/construção), com uma genialidade inacreditável, que o faz quase um vidente de nossas futuras mazelas modernas. Muitos dos esquemas de Machado operam até hoje como realidade, não como ficção. Foi mais fundo que o conhecimento sociológico tradicional; sua arte atingiu a especificidade brasileira, a verdade negativa da nossa formação e da sociedade capitalista mundial. Só que Machado fez tudo isso embaralhando muito as coisas, multiplicando as aparências: vide como até hoje é interpretado sujeitos escroques como Bentinho ou o Conselheiro Ayres pela crítica literária estetizante.
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A vigência universal das idéias liberais (que se espalham com a vigência do capitalismo) não elimina o desenvolvimento desigual das relações sociais de cada país e a efetividade orgânica ou enraizamento dessas idéias. Esse universalismo abstrato barateia demais toda a discussão e deita fácil no leito das invariantes estruturalistas. Crítica fácil essa."Embora leitor de Adorno, Schwarz é ainda muito convencido de que economia explica ficção em Idéias Fora do Lugar. Depois ele sofisticou sua análise. É preciso sofisticar a análise crítica com essas objeções e com os semantemas da linguística. Ignorá-los e desqualificá-lo não é bom."A economia é a base da ficção ? Só se for num sentido negativo, não vulgar. Ora, Roberto Schwarz mostra que é justamente por que a economia (e o mercado de trabalho) NÃO funcionam como na Europa que, então, temos os "tipos" dependentes e agregados e os narradores facciosos e perversos etc. na ficção machadiana, para além da tentativa mimética frustrada, inverossímil, de Alencar ou Macedo.Antes que você impute um eurocentrismo e um nacionalismo às avessas, é fácil perceber qual é a posição de Schwarz aqui: é crítica de ambas as partes, tanto da Europa quanto de nosso padrão de desenvolvimento. A crítica é recíproca: nosso padrão faz a crítica do centro, o do centro critica o nosso. Não há identificação com o agressor, ao contrário, há reflexão crítica de toda essa identificação e suas desigualdades.
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o caráter de "ideologia de segundo grau" é porque somos a cópia de uma ideologia que, até certo ponto, tem razão de ser no mundo especificamente capitalista. Enquanto o Brasil não tinha mercantilizado e regularizado sua força de trabalho o liberalismo foi uma ideologia postiça, manca. Daí não se tira que o liberalismo aqui ainda faça sentido: hoje sabe-se que o Brasil parece mais um ornitorrinco que um pavão liberal clássico.
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"Ilusão que os fazendeiros manipulam (segundo grau), seguindo o raciocínio de Schwarz." ?
Só não concordo com a idéia de manipulação. Não creio. O discurso é efeito de estruturas práticas muito profundas de nossa formação social, cristalizada em suas relações e sedimentada na cultura brasileira. Sérgio Buarque de Holanda mostrou bem o papel da retórica desde os períodos iniciais da colônia.
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Eu me refiro à tendência mitomaníaca e mesmo histérica do discurso brasileiro... o uso e abuso da retórica, o floreamento em torno de assuntos completamente minúsculos, a cultura como casca e verniz, etc. - foi isso que Machado de Assis imortalizou no conto Teoria do Medalhão.
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É complicado fazer essa crítica à queima-roupa sobre Machado, como se a pobreza do enredo (que são propositais, principalmente em Esaú e Jacó ou Memorial de Aires), o reino amalucado da opinião e do saracoteio retórico fosse exatamente o modo de ser da pessoa de Machado. Isso é leitura sociologista e psicologista.Eliminando a posição do narrador mascarado e da mimese construtiva em todo esse empreendimento chegamos a leituras do tipo Sylvio Romero. Assim também toda a questão da escravidão, que, conforme Chalhoub mostrou, foi ele quem na secretaria da Agricultura, soltava terras nas mãos dos oprimidos.
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Gagueira e tartamudeio narrativo ?!!! Um achado ? Poxa vida, gostaria de se saber como é que se consegue provar uma coisa dessas com argumentos racionais. Claro, o estilo de Brás Cubas e Dom Casmurro, por exemplo, é cheio de pausas, digressões, ruminações, contornos em volta de detalhes insignificantes... é muito mais o ritmo narrativo (e não biográfico!) do perverso ou do histérico e o do obsessivo, respectivamente, do que qualquer curto-circuito com a epilepsia ou a gagueira.
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(Discussão travada entre participantes do Orkut entre Agosto de 2005 e Junho de 2008).