quarta-feira, 2 de julho de 2008

Dois mestres na periferia do capitalismo
Uma discussão sobre "Idéias fora do lugar" de Roberto Schwarz

Cláudio R. Duarte

De forma alguma posso concordar com os que dizem que Schwarz faz sociologia da literatura. Ao contrário, investiga a sociedade dentro do texto de Machado de Assis, e deixa com cara de bobo aquelas leituras estetizantes, que não dão peso ontológico para a forma literária. O ensaio sobre as idéias fora do lugar é apenas um dos momentos de sua interpretação, aquele que prepara a análise do Brás Cubas. Nela ele procura mostrar como a ideologia liberal no Brasil não tem um funcionamento, como legitimação da dominação de classe, igual ao modelo europeu de capitalismo, mas funciona como puro enfeite, capricho, desfaçatez, cinismo, tal como indica a verve volúvel do narrador Brás Cubas. Sem essa análise social simplesmente não se compreende nada da FORMA LITERÁRIA e de sua mímese.E com isso, perceba bem, caro Marcos, Schwarz abre a possibilidade de criticar, com Machado, não só o nosso atraso social e cultural mas também a própria norma burguesa. Um Schwarz nacionalista é um disparate. Grandes pensadores seguiram essa forma de pensar, entre outros John Gledson, José Antônio Pasta Jr., Paulo Arantes e até o J.G. Merquior, mostrando a fecundidade dessa análise.A pergunta deveria ser outra: como pode o esteticismo ingênuo se propagar num país tão vulgar culturalmente e economicamente tão cruel e bárbaro como o Brasil ? O próprio Machado deu a resposta com os tipos parvenus da cultura, tal como pinta em Quincas Borba ou Esaú e Jacó.
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Muitos são os que desprezam essa crítica de Schwarz confundindo-o, tal como Maria Sylvia C. Franco, com um marxista tosco, que não conhece o mínimo da unidade dialética dos contrários.O nosso atraso (escravismo) não é um atraso no tempo, mas um atraso sincrônico ao progresso capitalista do centro, e promovido por ele: é o outro dialético do liberalismo, funcional a ele, o seu próprio fundamento. O sistema é um só. Mas isso não quer dizer que o sistema não era (e é) rachado em centro e periferia da acumulação. Quanto à forma literária em Machado (pelo menos o do segundo Machado), somente Schwarz a desvendou realmente (o resto é quase sempre mera pesquisa estilística, sem força explicativa real). É um trabalho comparável ao de Benjamin ou Adorno.
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Não, o liberalismo era uma forma ideológica que funcionava, pelo menos até a ruptura de 1848, segundo Lukács. Lá na Europa, a ideologia burguesa da troca de equivalentes funcionava, bem ou mal tinha ainda um certo fundo real; real hipocritamente encoberto (não cinicamente) por direitos humanos, racionalismo, política democrática estatal etc. Porém, não aqui em que a força de trabalho era completamente uma coisa, o mesmo para o pobre-diabo 'livre', mas sem liberdade alguma de autodeterminação da vida, nem a de vender no mercado. Aqui a dominação era explícita. Isto tem implicações fundamentais para o romance: Machado já não podia imitar a forma do roman fleuve europeu, pois esse não se adaptava à nossa matéria histórica. Vide a leitura que Schwarz faz de Alencar a partir do metro machadiano. Machado produziu então uma nova forma artística que conseguiu determinar este material de forma precisa (mimese+construção), com uma genialidade inacreditável, que o faz quase um vidente de nossas futuras mazelas modernas. Muitos dos esquemas de Machado operam até hoje como realidade, não como ficção. Foi mais fundo que o conhecimento sociológico tradicional; sua arte atingiu a especificidade brasileira, a verdade negativa da nossa formação e da sociedade capitalista mundial. Só que Machado fez tudo isso embaralhando muito as coisas, multiplicando as aparências: vide como até hoje é interpretado sujeitos escroques como Bentinho ou o Conselheiro Ayres pela crítica literária estetizante.
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Informação útil para os renitentes: Schwarz escreveu o seu doutorado em francês. Nele, o título do texto não era obviamente "Idéias fora do lugar", mas "Des ideés en porte faux" ...algo assim como "idéias em falso", "idéias mancas". Daí a confusão de "fora do lugar" com um aspecto meramente geográfico (já que toda ideologia tem de se encaixar num lugar sendo funcional).
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"Uma boa objeção: existiam homens livres na ordem escravocrata, logo, existe um lugar para as idéias liberais". Depende de quem estamos nos referindo. "Os homens livres na ordem escravocrata" que Maria Sylvia Carvalho Franco estuda em sua tese são os agregados e dependentes sem eira nem beira, para os quais o mercado e o trabalho assalariado não existiam como opção. Mas Schwarz não é tão ingênuo em não perceber que o liberalismo e a ideologia da troca de equivalentes não cumpre uma função orgânica num país que vive de exportações agrícolas no mercado mundial. Para fora, o nosso liberalismo faz sentido. Para dentro é que ele ficava manco.
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A ideologia liberal burguesa no Brasil não funciona da mesma forma que na Europa. Esta é uma diferença crucial que Machado foi um dos primeiros a sentir (talvez não a conceber), tanto que mudou a forma do romance brasileiro. A pesquisa do Schwarz não é uma coisa surgida do vácuo. Muita gente já tinha escrito sobre nossas esquisitices e descaramentos, entre outros Joaquim Nabuco. Qto a sua questão sobre a ideologia, diria que a ideologia tem de funcionar, manifestar sua força pragmática na realidade: ou funciona ou torna-se cinismo. Na Europa os ideais humanistas e liberais realmente mascaravam, até pelo menos 1848 cf. Lukács. Marx mostra como após essa data a economia se torna cada vez mais vulgar, uma apologia direta da burguesia, uma "religião da vida cotidiana". No Brasil, a manutenção da ordem não podia ser feita simplesmente com a ideologia liberal, tinha a necessidade da força, da violência para operar realmente. O fetiche da mercadoria se instaura cinicamente sem ideologia. Quanto à superação (Aufhebung, que você ironiza como se fosse mera perfumaria), realmente você não entendeu nada do que está em jogo na crítica de Schwarz-Machado: não se trata de tirarmos nosso atraso do Centro capitalista, nos igualarmos a ele. Mas trata-se, antes, de criticarmos o sistema liberal-burguês tanto aqui na periferia (onde o sistema mostra sua verdade negativa) quanto no Centro. Machado mostra, segundo Schwarz, a virtualidade negativa do sistema mundial... algo que só apareceu de fato no Centro por volta das Grandes Guerras, com Hitler, Auschwitz etc. Coisa que Adorno-Horkheimer foram os primeiros a recuperar como história do fracasso desastroso da razão iluminista. Machado é negativo de ponta a ponta. A crítica brasileira nunca tinha atinado para isso.
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Schwarz não afirma, nem ninguém afirmaria um disparate desses, que a ideologia liberal na Europa correspondia com sua realidade histórica. Justamente por ser ideologia ela corresponde só às "aparências" (Vencedor, p.12,18), já que lá há troca de equivalentes entre vendedores livres no mercado, a igualdade formal é real, combate-se o favor (privilégio feudal), surge a ética do trabalho, as Luzes entram de fato como esclarecimento social na educação, etc.etc. Ou seja, a ideologia na Europa, pelo menos até 1848, funcionava como engano objetivo pois correspondia à APARÊNCIA SOCIALMENTE NECESSÁRIA da circulação de mercadorias. Balzac, Stendhal ou Baudelaire, mesmo imersos nessa ideologia, conseguiram rompê-la. Sartre, Adorno, Benjamin, Oheler retomaram tudo isso. Said é mero epígono nesse debate.Isso não quer dizer que o sistema ideológico europeu então era perfeito. Claro que não, o romantismo já tinha percebido isso, como vc disse, aqui e lá. Só que ele só irá mostrar REALMENTE a sua negatividade absoluta, pelo menos em solo europeu, em momentos traumáticos como 1848 ou com a ascensão do nazi-fascismo. O que o Pós-Guerra iria recalcar, com a reconstrução do Estado de Bem-estar.O colonialismo do tipo americano podia ser justificado por um liberal como Wakefield - o que Marx mostra no Capital. O escravismo não. Cedo ou tarde a Inglaterra cobraria o mercado livre de países como Brasil, no momento em que a própria produtividade econômica do escravo ia se tornando menor, comparada ao assalariamento.Em que sentido Machado supera os românticos ? A rigor, Machado não supera nada, a não ser no plano literário, pois dá um passo além no nosso Romance: cria uma forma precisa que exprime de forma incrível, inédita no país, todas as nossas mazelas, sem qualquer ranço de nacionalismo ou de saudades do modelo europeu que nunca tínhamos visto.
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Machado não é, porém, "salvação de lavoura" alguma. Ao contrário, tornava-se um clássico nacional, pasmen, negativo, pessimista, que detonava nossa lavoura nascente, para além da própria ideologia burguesa e seu sistema correspondente. Mas se comparmos sua mordacidade crítica com Alencar e os românticos, aí teremos, como mostrou Schwarz e outros, um grande hiato. Ou pelo menos estamos aguardando aqui a sua demonstração estética, mínima que for, da complexidade crítica e negativa do nosso romantismo, para além da própria ideologia burguesa e seu sistema. Ou seja, sem entrar no mérito formal-estético de Machado ou dos românticos, como Schwarz fez, não temos avanço em nosso debate. Quanto ao liberalismo ser uma ideologia "dentro do lugar" no Brasil, o que você está desprezando é o próprio conhecimento histórico (e dialético) do crítico que ora criticas. Seria muita ingenuidade não perceber como o liberalismo estava na boca de fazendeiros escravistas. Schwarz sabia muito bem que o livre-cambismo servia para abrir mercados, isto é, que ele operava ao nível da circulação... MAS não ao nível da PRODUÇÃO. É isso que torna tais idéias "mancas" ou "postiças". A ideologia liberal progressista não caía bem cotidianamente, não era congruente com escravismo e clientelismo, era até disfuncional em certo contexto. Vivíamos uma esquizofrenia descarada entre discurso e realidade. Bosi, citado, é apenas inconsequente em sua logomaquia anti-Schwarz, que, aliás, é apenas mais um crente, talvez inconsciente, destes mesmos ideais liberais, progressistas e desenvolvimentistas do sistema do capital mundial. ("Era liberdade para destruir a liberdade"... cita o bom-moço católico... como se tal liberdade de comercializar não tivesse em si tal contradição desde o seu princípio).
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"Se insistimos no viés que escravismo e favor introduziram nas idéias do tempo, não foi p/ as descartar, mas p/ descrevê-las enqto enviesadas - fora de centro em relação à exigência q elas mesmas propunham"... (As idéias fora do lugar, in: Ao vencedor as batatas, Duas Cidades, p.21). O que Schwarz mostra, com Machado em mãos, não é que o liberalismo e o racionalismo eram um completo espantalho no Brasil. Eles eram, no entanto, no chão da vida cotidiana onde se passa o vivido dos romances machadianos, mais um "ornato e marca de fidalguia" (p.19) que uma relação efetiva fundada nas aparências. Isso é totalmente diferente da Europa. O colonialismo estava muito longe para um europeu. No Brasil a lógica cotidiana do favor substituía na prática o sistema liberal como ideal ético, passando até mesmo como "liberdade entre iguais", algo parecido (mas não igual) à ideologia liberal portanto: "assim, com método, atribui-se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio etc."(p. 19)Acho que já chega, mas vale ressaltar ainda: a qst. da ideologia liberl é só um dos problemas tratados por Machado, cf. Schwarz. No fundo um tema mais fundamental é esse: há toda a questão do desenvolvimento histórico malogrado no Brasil, uma espécie de dialética negativa da formação (contrastes rebarbativos, desproporções, disparates, anacronismos, contradições insolúveis, conciliações de compromisso etc.), que só Machado realmente deu forma como tal, em pleno séc.19, adiantando-se em muito ao modernismo europeu. Se para você tudo isso é pouco ou ilusório (mero exercício de binarismo dialético, ainda por cima "nacionalista"), da parte de Schwarz ou de Machado, então... cabe mostrar aqui ou em outro lugar, porque tudo o que você falou não cola.
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Não vou insistir mais: você está igualando o funcionamento de nossa vida ideológica colonial à da Europa só pelo fato de ambas viverem integradas num sistema mundial de acumulação de capital. A totalidade não desfaz as desigualdades. O sistema é desigual e combinado etc. Não havia esquizofrenia radical entre teoria e praxis, ideologia e vida cotidiana na Europa até pelo menos 1848 (cf. Lukács). Mesmo depois daqui, o sistema liberal operava perto da aparência da circulação, havia mobilidade social, etc. Somente mais tarde a ideologia no solo europeu realmente furou, sendo necessário realmente o apelo à força. O nazi-fascismo foi isso. A Europa exportava as suas contradições mais agudas, os seus prejuízos, enquanto acumulava os ganhos imperiais. A ideologia burguesa funcionava enquanto tal fundada nas aparências (não simplesmente "no relho"), não era puro cinismo e desfaçatez de classe como aqui. O liberalismo aqui era um mero discurso oligarca para conseguir mercados externos, no mais, era uma coisa radical demais, coisa de republicanos jacobinistas, de classes perigosas. É claro que as armas são o substrato último da dominação aqui como lá. Mas isso não iguala nossa posição a deles. O romantismo, salvo melhor análise (e daria um bom estudo isso) não parece-me ter a consciência da absoluta negatividade da ordem capitalista. É um mal difuso, jogado ao mundo em si mesmo. Precisou surgir um Baudelaire para mostrar o limite do velho romantismo. Fora a questão da ideologia, que não é o principal para Schwarz, é todo o ritmo histórico natural da sociedade brasileira - a história lenta, a modernização conservadora, que não acumula experiência política nenhuma, onde tudo dá em nada - que Machado está apresentando em seus textos. Mostrar isso foi um mérito (quase) indiscutível de Schwarz. Por isso tiro meu chapéu a ele sim.Coisa nem imaginada por comentadores clássicos e maravilhosos como Lucia Miguel Pereira, Augusto Meyer, Barreto Filho. Por isso mesmo não sou um cultor de Schwarz. É preciso ler todos eles.

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"Cláudio, onde existem homens livres devem existir idéias liberais, não é mesmo?"

Sim. Claro. A questão é a da organicidade das idéias, a do seu enraizamento, já que era difícil ser um "Kant do favor", como brinca Schwarz. ... e a questão do colonialismo na mentalidade européia não é objeção alguma ao fato de que ... o liberalismo era uma forma ideológica que funcionava como legitimação da dominação, pelo menos até a ruptura de 1848, segundo Lukács. Na Europa, a ideologia burguesa da troca de equivalentes funcionava, pois bem ou mal tinha ainda um bom fundo real nas aparências; real hipocritamente encoberto (não cinicamente) por direitos humanos, racionalismo, política democrática estatal etc. Porém, não aqui em que a força de trabalho era completamente coisificada, o mesmo para o pobre-diabo 'livre', mas sem liberdade alguma de autodeterminação da vida, nem a de vender no mercado. Aqui a dominação era muito explícita. Isto tem implicações fundamentais para o romance: Machado já não podia imitar a forma do roman fleuve europeu, pois esse não se adaptava à nossa matéria histórica. Vide a leitura que Schwarz faz de Alencar a partir do metro machadiano. Machado produziu então uma nova forma artística que conseguiu determinar este material de forma precisa (mimese/construção), com uma genialidade inacreditável, que o faz quase um vidente de nossas futuras mazelas modernas. Muitos dos esquemas de Machado operam até hoje como realidade, não como ficção. Foi mais fundo que o conhecimento sociológico tradicional; sua arte atingiu a especificidade brasileira, a verdade negativa da nossa formação e da sociedade capitalista mundial. Só que Machado fez tudo isso embaralhando muito as coisas, multiplicando as aparências: vide como até hoje é interpretado sujeitos escroques como Bentinho ou o Conselheiro Ayres pela crítica literária estetizante.
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A vigência universal das idéias liberais (que se espalham com a vigência do capitalismo) não elimina o desenvolvimento desigual das relações sociais de cada país e a efetividade orgânica ou enraizamento dessas idéias. Esse universalismo abstrato barateia demais toda a discussão e deita fácil no leito das invariantes estruturalistas. Crítica fácil essa."Embora leitor de Adorno, Schwarz é ainda muito convencido de que economia explica ficção em Idéias Fora do Lugar. Depois ele sofisticou sua análise. É preciso sofisticar a análise crítica com essas objeções e com os semantemas da linguística. Ignorá-los e desqualificá-lo não é bom."A economia é a base da ficção ? Só se for num sentido negativo, não vulgar. Ora, Roberto Schwarz mostra que é justamente por que a economia (e o mercado de trabalho) NÃO funcionam como na Europa que, então, temos os "tipos" dependentes e agregados e os narradores facciosos e perversos etc. na ficção machadiana, para além da tentativa mimética frustrada, inverossímil, de Alencar ou Macedo.Antes que você impute um eurocentrismo e um nacionalismo às avessas, é fácil perceber qual é a posição de Schwarz aqui: é crítica de ambas as partes, tanto da Europa quanto de nosso padrão de desenvolvimento. A crítica é recíproca: nosso padrão faz a crítica do centro, o do centro critica o nosso. Não há identificação com o agressor, ao contrário, há reflexão crítica de toda essa identificação e suas desigualdades.
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o caráter de "ideologia de segundo grau" é porque somos a cópia de uma ideologia que, até certo ponto, tem razão de ser no mundo especificamente capitalista. Enquanto o Brasil não tinha mercantilizado e regularizado sua força de trabalho o liberalismo foi uma ideologia postiça, manca. Daí não se tira que o liberalismo aqui ainda faça sentido: hoje sabe-se que o Brasil parece mais um ornitorrinco que um pavão liberal clássico.
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"Ilusão que os fazendeiros manipulam (segundo grau), seguindo o raciocínio de Schwarz." ?
Só não concordo com a idéia de manipulação. Não creio. O discurso é efeito de estruturas práticas muito profundas de nossa formação social, cristalizada em suas relações e sedimentada na cultura brasileira. Sérgio Buarque de Holanda mostrou bem o papel da retórica desde os períodos iniciais da colônia.
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Eu me refiro à tendência mitomaníaca e mesmo histérica do discurso brasileiro... o uso e abuso da retórica, o floreamento em torno de assuntos completamente minúsculos, a cultura como casca e verniz, etc. - foi isso que Machado de Assis imortalizou no conto Teoria do Medalhão.
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É complicado fazer essa crítica à queima-roupa sobre Machado, como se a pobreza do enredo (que são propositais, principalmente em Esaú e Jacó ou Memorial de Aires), o reino amalucado da opinião e do saracoteio retórico fosse exatamente o modo de ser da pessoa de Machado. Isso é leitura sociologista e psicologista.Eliminando a posição do narrador mascarado e da mimese construtiva em todo esse empreendimento chegamos a leituras do tipo Sylvio Romero. Assim também toda a questão da escravidão, que, conforme Chalhoub mostrou, foi ele quem na secretaria da Agricultura, soltava terras nas mãos dos oprimidos.
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Gagueira e tartamudeio narrativo ?!!! Um achado ? Poxa vida, gostaria de se saber como é que se consegue provar uma coisa dessas com argumentos racionais. Claro, o estilo de Brás Cubas e Dom Casmurro, por exemplo, é cheio de pausas, digressões, ruminações, contornos em volta de detalhes insignificantes... é muito mais o ritmo narrativo (e não biográfico!) do perverso ou do histérico e o do obsessivo, respectivamente, do que qualquer curto-circuito com a epilepsia ou a gagueira.
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(Discussão travada entre participantes do Orkut entre Agosto de 2005 e Junho de 2008).

quarta-feira, 21 de maio de 2008

UM CONCEITO MATERIALISTA DE FORMA
(rascunhos circulares sobre a questão da forma artística)

CLAUDIO R. DUARTE

O grande problema dos críticos formalistas é reduzir a forma literária a aspectos fragmentários do estético. Uma noção "boboca" de forma. Para alguns, nas questões de forma, cabem apenas discussões sobre gênero literário, tipos de personagens, formas retóricas, foco narrativo etc. A forma literária é isso, e muito mais que isso, segundo Roberto Schwarz ou Antonio Candido. Forma é conteúdo, sem separação, a não ser analítica. Este conteúdo é imanente à obra, mas um conteúdo histórico determinado. Ela é a sedimentação de um conteúdo histórico, ele mesmo formado. A forma literária machadiana é, segundo mostra Schwarz, a mímese construtiva de uma forma histórica externa. Ela não simplesmente a representa, mas a representando também pode criticá-la. Traços formais como o do narrador volúvel, o da paródia, o das intertextualidades ou da carnavalização das situações e personagens, o da alegoria, etc. só podem ser compreendidos em Machado de Assis tendo essa noção ampliada de forma. A forma machadiana não é gratuita, mas historicamente determinada. Somente esse tipo de olhar materialista da literatura consegue revelar todas as virtualidades da forma, descobrindo-lhe suas camadas de sentido determinadas, deixando as generalidades estetizantes para os ingênuos.
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A dialética foi uma "palavra mágica" muito mal empregada em questões de análise literária e artística em geral. Lá onde se vê determinismo das forças produtivas, reflexo da base, trata-se de ver condicionamento recíproco, diálogo entre as partes de um todo, unidade do diverso, movimento das partes, reverso no seu contrário etc. Certamente poucos aprenderam isso na "coisa mesma". Marx e Adorno são mestres nisso. Schwarz, Candido, Ruy Fausto e Arantes entre nós. Não adianta ficar especulando muito, voltemos a Machado. Como não perceber que a forma do romance machadiano tem relações com a forma histórica ? Como não perceber as similaridades, as homologias, o diálogo intenso com a época ? Não há, isso é evidente, uma relação de determinação direta da economia, da visão de classe ou da filosofia do autor. (Por falar nisso, há múltiplos determinismos, não só o econômico. Alguns tentaram determinar a obra pela filosofia do autor e até pela biografia dele. Lucia Miguel Pereira, Afranio Coutinho e Miguel Reale conseguiram achar uma "filosofia de Machado de Assis", sem perceber o movimento do próprio texto que geralmente destrói essas sabedorias de almanaque e tiradas filosofantes de Brás Cubas, Quincas Borba, Bento Santiago ou Aires). Não há mimese sem construção. Machado não só representa, mas representa construindo: a obra é como um prisma, cuja luz histórica, já formada, é refratada e transformada pela forma literária interna. Machado não representa ou espelha "objetivamente" conteúdos externos (nesse sentido ele não é um realista), mas apresenta-lhes numa certa lógica interna, cheia de tensões e cambalhotas. Como não perceber que a obra machadiana é a apresentação conseqüente das contradições sociais específicas do capitalismo periférico ? A melhor obra, como diz Adorno, é aquela que consegue apresentar as contradições, sem harmonizá-las numa unidade imaginária. De modo que, às vezes, a boa obra é a que fracassa, a que é desarmônica, dissonante, cheia de problemas de coesão, cheia de cacos pontiagudos, de esquisitices etc. Há muita coisa esquisita, extemporânea, no Brás Cubas ou em Esaú e Jacob. Só uma visada realmente dialética pode perceber nuances formais como essas.
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Recapitulando: o conteúdo a ser formado pelo artista é ele mesmo algo já formado, tem sentido em si, é um conjunto de "estruturas de sentido" - e não algo que é simplesmente imposto pelo artista, com a mão de gênio. O artista nem por isso é menos criador, já que essas estruturas de sentido ele não só as mimetiza e representa, mas as constrói ou reconstrói num todo formal absolutamente novo. Entre mimese e construção há continuidade e ruptura. Não há reducionismo algum nessa síntese dialética de ambas.
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Ou ainda: a forma estética para Adorno e cia. materialista não é nunca mera contingência - mas tem relação com estruturas de sentido socialmente dadas, sempre em processo. E por isso mesmo a forma não é algo totalmente imposto pela subjetividade do autor. O que destrói o mito do gênio. O grande autor é um construtor de Obras certamente, mas não o é criando formas quaisquer ex-nihilo, sem base num material pré-formado, que impõe necessariamente processos de mimese, que trazem a forma do que "em si", como material, como pressuposição de conteúdo interno, tornar-se-á a unidade de forma/conteúdo na obra terminada. Não há construção sem mimese, nem mimese sem construção.
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A originalidade de Antonio Candido surge um pouco também daí: não precisa arrotar suas manobras metodológicas, sejam estruturalistas, sejam dialético-marxistas. Princípios teóricos não garantem por si só um bom resultado analítico. (Essa era a lição de Adorno ou Benjamin). Sua originalidade, como bom materialista, é a concentração máxima no objeto, para daí refazer as teias do texto com a sociedade e a história, passando pelo diálogo "intertextual" com Zola e o naturalismo da época. Antonio Candido faz, assim, uma análise formal imanente (a sociologia serve, tal qual a intertextualidade, para caracterizar não só o conteúdo mas a forma interna do texto, e não para fazer discursos estrangeiros a ele, como se costuma dizer de Schwarz e Candido), e frise-se aqui: uma análise formal não formalista. Assim, não é preciso necessariamente trabalhar com "funções" e "operadores" supostamente invariantes de qualquer texto, como a análise estruturalista propõe. Basta uma boa análise imanente, a concentração no próprio objeto, com todas as suas mediações sócio-simbólicas. A adequação nacional, no caso também, é essa independência em relação às modas teóricas francesas e americanas. Daí o sentido político dessa análise, que, em geral, é simplesmente perdido nas estruturalices.
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"Assim, a unidade do livro [O cortiço] — um fato interno, de construção e estrutura — apresenta também uma face mimética — um fato da ordem dareferência externa, ficando unidos aspectos que as teorizações recentes não costumam considerar em conjunto." (Schwarz, Adequação nacional e originalidade crítica in: "Seqüências Brasileiras").
A chave da compreensão desse trecho, talvez, quem nos dá é o Adorno na Teoria Estética: um obra torna-se (às vezes, nem sempre!) mais mimética (apresenta a realidade em movimento e torna-se mais verossímil e mais expressiva) quanto mais ela avança dialeticamente no pólo oposto, isto é, quanto mais ela é composta, estruturada, construída. Os advogados da pura construção, estruturalistas e pós-estruturalistas como Barthes ou Sant´Anna irão denegrir a mimese, como se ela fosse o simples espelho de um real objetivo, que não existe. O que Schwarz nos diz é que a forma interna sempre é construída sobre uma forma preexistente, que é a forma da realidade. A composição do romance é essa síntese das duas formas. O pressuposto aqui é assumir que o material utilizado na obra nunca é puro material caótico, ao contrário, ele mesmo já é formado e determina a forma interna do romance. Daí a "melhor" construção formal de uma obra particular ser aquela que mais mimetiza a forma ontológica do ser social universal, sem prejuízo da originalidade, da fantasia, da criatividade do artista e produtividade singular do texto. Adorno chama essa mediação entre mimese e construção de "fantasia exata" ("Leitura de Balzac" in Noten zur Literatur).
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Segundo Adorno, a mimese não se restringe a ser cópia da "natureza real", do mundo empírico e exterior à obra. Ela é algo muito extenso na experiência, e diz respeito tanto a uma atividade de adaptação do homem ao mundo, a um procedimento de expressão corporal, e, no interior da obra, pode representar estruturas reais ou fictícias (literárias, musicais etc.). Pode-se também, ainda, mimetizar um estilo literário alheio. Quando Machado de Assis toma Lawrence Sterne ou Luciano de Samósata como "modelos" para a prosa de Brás Cubas, ele está imitando um outro texto, que tem relações de semelhança e proximidade com as estruturas objetivas e subjetivas do seu país. A mimese é tomada no amplo sentido, portanto. Ao lado disso, há toda uma construção lógica, formal propriamente dita, que é o momento da poiésis, da invenção, do artifício literário. Agora, deve-se perguntar: por que Luciano, a sátira menipéia, Sterne etc. e não outro modelo (a forma romântica ou realista clássica, stendhaliana e balzaquiana p.ex.) ? Por que essa forma que "mescla estilos" sob a égide do humor - a forma satírica e mesmo grotesca do humour machadiano - diz mais, expressa mais, apresenta mais alguns problemas centrais que outras ? Porque tais formas construídas permitem apresentar mimeticamente as virtualidades de nosso processo social estruturalmente cindido entre escravidão e liberalismo, dominação direta e indireta (via capital), lógica do favor e do mercado universal. E não é preciso derivar intertextualmente todo Machado só dessa tradição sterniana. Na realidade, as estruturas brasileiras são tão poderosas que, mesmo plasmadas noutro conjunto de formas literárias, elas continuam dando sinal: veja-se por exemplo o "mundo misturado" de Guimarães Rosa, em que as personagens são tão "volúveis" e "misturadas" quanto as de Machado.
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Schwarz concede sim bastante espaço para o diálogo intertextual (que é mimese literária tal qual outras formas) ! Leia o capítulo sobre a Acumulação literária no "Um Mestre... !"Schwarz foi o primeiro talvez a mostrar como Machado deve muito à tradição literária brasileira, para além do modelo europeu realista, atando pontas lá onde outros simplesmente cortavam: Machado volta a José de Alencar (Eugênia / a Pata da Gazela p.ex.), a Macedo, ao clima satírico da crônica, do folhetim, do teatro de Inglês de Souza, Martins Penna etc. ... e também a Sterne, a Pascal, Shakespeare, Schopenhauer e a filosofia do inconsciente, o positivismo, o social-darwinismo etc. E ainda mostra o quanto isso foi apropriado de forma crítica, irreverente, já que Machado de Assis foi um "deturpador de textos" (Raymundo Magalhães). E para quem diz que Schwarz não atenta para a psicanálise: seria fácil mostrar como ele, num argumento finamente cerrado, expõe toda a lógica do desejo de Brás Cubas, que é perversa em essência, sem ter de ficar citando Freud ou Lacan para isso. Agora, é claro que ele não esgotou toda a interpretação possível. Isso seria demais. Mas Schwarz é um crítico completíssimo: faz leitura imanente, puxando os fios formais-narrativos, sociológicos, históricos, econômicos, psicanalíticos, filosóficos etc.
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Acho que o texto schwarziano sobre Dom Casmurro é apenas um ensaio - diferente da análise do Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é um livro completo. Naquele texto ele se interessa, a partir de Caldwell, Gledson e outros, em mostrar como Machado construiu novamente um narrador capcioso - e o que isso tem a ver, novamente, com a estrutura social do país - lá onde outros lêem a Forma como uma invenção/construção puramente estética, sem nenhum traço mimético de raíz profunda. A partir dessa constatação a análise formal, mesmo nos limites desse ensaio, se eleva a um patamar de consciência superior: constatando-se essa ironia machadiana de base, que sempre está dizendo o outro do que aparentemente diz ou faz, não se pode levar a sério uma análise do trágico em DC, como se esse fosse um texto realmente "trágico". Não, é fundamentalmente um texto alegórico ou irônico, um discurso envenenado, que emula o Otelo de Shakespeare (e muitas coisas mais), mas que tem outro sentido que o trágico, e passa a ser sátira da classe dominante brasileira. Lido desse jeito, perde-se a ingenuidade da análise formal clássica.Quanto a Rosa e outros: acho possível mostrar como várias personagens da literatura brasileira passam e repassam por posições a esmo, estão em constante metamorfose, relativizando tudo em sua volta, ao mesmo tempo que em busca de alguma idéia fixa (um absoluto), sem nunca se decidir e se formar uma verdadeira identidade - ou seja, a volubilidade não é característica que emerge só em Machado (Rubião, Palha, Sofia, Flora, etc.) mas vem de longe (os "malandros" entre a ordem e desordem do Memórias de um sargento de milícias ou em "Tony Roy" de João Antônio; a Aurélia de Senhora do Alencar, o Macunaíma, a paixão pelo amorfo em G.H.). Entre esses seres volúveis Riobaldo: desde Candido e Walnice N.Galvão se sabe como ele é um ser ambíguo, passa de um bando a outro, tanto quanto Zé Bebelo, Hermógenes ou sua mulher. Ou ainda: Diadorim: homem-mulher, donzela guerreira, com ódio de morte e ternura...
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Os formalistas dirão: se há essa metamorfose ambulante das personagens, isso não passa de um simples jogo estético, no plano das formas puras, inventadas arbitrariamente por escritores brasileiros nefelibatas. E essa coincidência não existe, no fundo, ou também é arbitrária, é a "sua visão", ou cada forma é uma forma singular, há mais diferença entre Riobaldo e Brás Cubas que semelhanças etc. etc.De um ponto de vista materialista a mimese literária conta de modo muito mais radical. Claro que há diferenças, elas contam e muito. Mas há semelhanças objetivas, de um ponto de vista comparativo internacional, e que têm raiz profunda na sociabilidade periférica, em estruturas sociais muito amplas e resistentes, em nosso caso, em última instância na cultura brasileira, fundada na relação de dominação brutal entre senhor-escravo-depedentes e o movimento de acumulação periférico, variando entre o contrato formal e universal dos direitos e a arbitrariedade oligárquica local, o sujeito moderno monológico, solitário, individual e a pessoa porosa, fundida e agregada aos clãs do poder local, a temporalidade urbana do capital e a espacialidade dos domínios rurais, a moral de senhores e a astúcia e expedientes de sobrevivência de escravos e dependentes, etc. E mais, ainda: a periferia inteira do sistema capitalista parece girar em torno desse regime de formas volúveis de subjetividade e modos de ser social instáveis. Schwarz aponta algo de semelhante nos russos (Dostoievski, Gogol etc.). Eis um programa de estudos materialista em literatura que não é só jogo.
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Essa volubilidade foi constatada por muitos comentadores atuais; ...numa tese de doutorado sobre Rosa (Danielle Corpas, O JAGUNÇO SOMOS NÓS -VISÕES DO BRASIL NA CRÍTICA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS) diz-se:
"Trata-se de um aspecto da composição da obra e da visão de mundo do narrador-protagonista que tem sido sublinhado, com freqüência e de maneiras bem diversas, ao longo da fortuna crítica desse texto ondetudo o que é pode deixar de ser, tudo o que não é pode vir a ser, os contrários se sobrepõem, os limites entre uma coisa e outra são muito tênues, às vezes apagados. (...) Antonio Candido fala em “reversibilidade”, Walnice Nogueira Galvão, em “ambigüidade”, José Antônio Pasta Jr., em “hibridismo”. Além disso, variam também as explicações que procuram elucidar a razão de ser dessa lógica a partir do reconhecimento da função estrutural que ela tem no romance."http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/trabalhos/daniellecorpas_jagunco.pdf
Nietzsche: entre a gravidade do Trágico e a leveza do Cômico

Cláudio R. Duarte

Nietzsche é modulado pela passagem constante do Trágico ao Cômico: pelo espírito grave vivendo e glosando situações terríveis (o destino da cultura, a impotência social dos "fortes") ao espírito leve do cômico; ou ainda, do espírito martelador e impassível, duro consigo e com outros (de onde se retira vários dos temas aristocráticos: pathos de distância, hierarquização, anticompaixão etc.), ao espírito da ironia fina, do ceticismo, da dança e da música. O humor é um recurso constante de Nietzsche, principalmente no período que leva de A Gaia Ciência à última fase, apesar de que também é o momento em que ele endurece ainda mais, entrando na fase nomeada do "Grande Não" leonino. Se desenvolvermos esse esquema ele talvez nos leve a um tema fundamental mas pouco conhecido de Nietzsche: o do questionamento da vontade de verdade e dos limites da vontade de domínio nobre ou escrava. Com o que o mais alto grau da potência é alcançada artisticamente, na criação e doação de sentido, ou naquilo que Deleuze nomeu a "potência do falso" como criadora de "mundos". E aí Nietzsche parece-me que avança do trágico ao IRÔNICO E AO CÔMICO. Por isso me lembra outro grande psicólogo, só que nosso conterrâneo: Machado de Assis. O "homem revoltado" de Nietzsche é, nos melhores momentos, muito mais o cético ironista e o "bufão", como ele diz em Ecce Homo, do que o Aristocrata aguerrido, impassível e cruel consigo e com os outros. Daí o quixotismo involuntário dessa filosofia, num mundo nobre socialmente em decadência, resta o humor e a potência da máscara para transfigurar uma situação trágica de mudança e perda de horizontes.
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Vamos exemplificar e problematizar um pouco isso tudo que disse, com um aforisma pouco lembrado: Origem do Cõmico, em Humano Demasiado Humano § 169:"Quando se considera que por centenas de milhares de anos o homem foi um animal extremamente sujeito ao temor, e que qualquer coisa repentina ou inesperada o fazia preparar-se para a luta, e talvez para a morte, e que mesmo depois, nas relações sociais, toda a segurança repousava sobre o esperado, sobre o tradicional no pensar e no agir, então não deve nos surpreender que, diante de tudo o que seja repentino e inesperado em palavras e ação, quando sobrevém sem perigo ou dano, o homem se desafogue e passe ao oposto do temor: o ser encolhido e trêmulo de medo se ergue e se expande - o homem ri. A isso, a essa passagem da angústia momentânea à alegria efêmera, chamamos de cômico. No fenômeno do trágico, por outro lado, o homem passa rapidamente de uma grande e duradoura alegria para um grande medo; mas, como entre os mortais essa grande e duradoura alegria é muito mais rara que as ocasiões de angústia, há no mundo muito mais comicidade do que tragédia. rimos com muito mais freqüência do que ficamos abalados."
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Olá, boa observação Karina. Creio que no Nascimento da Tragédia, Nietzsche ainda se lamenta da perda do mítico e do trágico com Eurípides e o triunfo do "homem teórico" socrático e democrático - mas ainda podia sonhar com um Renascimento do trágico no Espírito da Música de Wagner (e com as correspondências materiais, pouco observadas pelos idealistas, de um Estado Prussiano que se armava até os dentes). Em lugar da tragédia, vinha a "nova comédia ática" (NT §11), e com ela, a entrada do público no palco, "o instante, o chiste, a irreflexão", "a dialética otimista", a chegada da mentalidade do escravo ao poder (ibid.). O que ele vê como uma perda, um grande dano. Vê, p.ex., com maus olhos o triunfo dos "sardônicos Lucianos da Antigüidade" (NT, §10) - referindo-se a Luciano de Samósata e à tradição da sátira menipéia, muito apreciada, aliás, por Machado de Assis (que usou tal tradição, que tem relação com o caráter carnavalesco segundo Bakhtin!, no Memórias Póstumas de Brás Cubas!). O que mudou então ? Com o passar do tempo, creio que o nobre Nietzsche foi se deparando cada vez mais - como um novo Quixote em tempos modernos - com a inevitabilidade do universo burguês, secularizado e democrático, mas sem o sumiço de seu caráter de luta e violência (Humano demasiado Humano p.ex., §441 e 443, para citar alguns pequenos exemplos laterias). Assim, não pode assumir a dialética otimista, mas também não pode deixar de atinar que o caminho do niilismo e da perda de todas as autoridades e hierarquias antigas já não tem volta e tudo isso vira fantasia carnavalesca (ABM 223). Daí a apologia da máscara. Não é daí que surgiram, por exemplo, vários de seus temas futuros, como aqueles relacionados à crítica do "espírito de gravidade", a crítica da "vontade de verdade" e a necessidade do "esquecimento ativo" do passado? E assim Nietzsche consegue a meu ver, nesses momentos em que afirma a ironia e o cômico (que tem relações com Sócrates, aliás), realmente abrir uma brecha em seu projeto aristocrático para algo além.
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Da crítica do espírito de peso no Zaratustra
Em "Do espírito de gravidade (ou de peso), §1", o Zaratustra diz-nos:"Minha linguagem é a do povo: de modo por demais grosseiro e sincero falo eu, para o gosto dos delicados. E mais estranha ainda soa minha palavra aos ouvidos de todos os plumitivos e escrevinhadores"Estranho ou não ? Não, se considerarmos que ele está reatando aqui com as raízes populares do cômico, há muito soterradas. E na seqüência:"Somente o homem é um pesado fardo para si mesmo ! E isso procede de que carrega às costas demasiadas coisas estranhas. Tal como o camelo, ajoelha-se logo e deixa que o carreguem bem. // Especialmente o HOMEM FORTE, com espírito de suportação, ao qual inere o respeito: de demasiadas palavras e valores estranhos e pesados carrega ele mesmo suas costas - e, então, a vida parece-lhe um deserto!"(...) Em verdade, também não gosto daqueles para os quais todas as coisas são boas e este é o melhor dos mundos. A esses chamo onisatisfeitos. (...)Infelizes chamo todos aqueles que têm somente uma escolha: tornar-se animais maus ou malvados domadores de animais; não construiria no meio deles uma choupana para mim // Infelizes chamo, ainda, os que devem sempre esperar - esses repugnam ao meu gosto: todos esses aduaneiros e merceeiros e reis e demais guardiães de países e lojas" (§ 2).Estranhos trechos, novamente, se considerarmos que o "homem forte" diria "sim" a tudo, e seria algo próximo ao animal feroz ou ao domador de animais. Ou ainda, essa crítica do rei e dos militares (na mesma esteira: Das Novas e velhas tábuas, §12), quase sempre elogiados por N. Mas aí não é justamente uma crítica autoreflexiva da nobreza que está aflorando? É por isso, talvez, que é só no Zaratustra que encontramos uma clara crítica de valores nobres (e não só dos escravos), com um esboço de transvaloração dos valores aristocráticos. Coisa que acho que não se repetiria mais, mesmo na comicidade de Além de Bem e Mal (cujo capítulo sobre "O que é nobre?" é, malgré lui, uma afirmação de um grande espírito de peso).
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De onde vem o humor e a ironia em Nietzsche ?
O que o Edivan sugere é que os tipos nobre e escravo são tipos-ideais. Pode ser. Em todo caso, os intérpretes de Weber/Simmel vêem em N. a fonte desses tipos ideais da escola alemã de sociologia, embora as fontes fundamentais talvez sejam principalmente Kant e Dilthey. Agora, Dioniso é o deus trágico e da alegria, segundo o Leandro, o que já resolveria toda a questão, de saída, já no Nascimento da Tragédia. Não creio. Pois aí é que acho que entramos num problema complicado (que abordei no outro tópico, chamado Nietzsche com/contra a religião). No NT (§ 10 e 11) ele vê, com Ésquilo/nova comédia ateniense, o fim daquele sentimento de "gravidade" e peso das situações, que as tragédias de Sófocles e Ésquilo instauram. Não basta, assim, voltar ao dionisismo, nem à tragédia. Acho que foi preciso também tresvalorá-los, ou filtrá-los, e, sobretudo reconstrui-los. Jean Pierre Vernant considera o dionisismo nietzscheano uma invenção, sem grandes relações com a religião dionisíaca efetiva, constatável nos documentos históricos (religião típica de mulheres e escravos, p.ex.). O conceito de dionisismo é muito mais um tipo conceitual que um tipo histórico-concreto.Muitas tragédias áticas geralmente têm desfecho otimista, segundo Alban Lesky (A tragédia grega). Por que o otimismo? Talvez porque restabelecem a ordem social hierárquica de sempre - nobres, mulheres, crianças, escravos, mercadores e estrangeiros - o dionisismo, como expressão da violência coletiva e a morte de um bode expiatório - se há algo dele na tragédia - está sempre a favor da Ordem. Há algo disso em Nietzsche, claro, que adoraria restabelecer uma hierarquia natural dos seres segundo sua potência.Ora, se há realmente essa tresvaloração dos valores nobres em Nietzsche, se há superação do espírito de gravidade, parece-me haver também uma ultrapassagem do dionisismo antigo, embora Nietzsche não deixe isso aparecer tão claro. Só por isso, também, os "homens superiores" são ponte: só a nova nobreza a ser produzida está realmente além-do-homem.
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(discussões de orkut- maio/2008)